Dia do Imigrante Italiano no Brasil – Homenagem póstuma ao prof. Dr. José Renato de Campos Araújo – EACH-USP (Leste)

Hoje, 21 de fevereiro, é comemorado o Dia do Imigrante Italiano no Brasil. Enalteço o ato de coragem dos imigrantes e parabenizo todos os descendentes.

Minha homenagem a José Renato de Campos Araújo, professor-doutor na Escola de Artes, Ciências e Humanidades, EACH-USP (Leste), que, no dia 31 de janeiro deste ano, de maneira brusca e inesperada cerrou os olhos para sempre. José Renato foi influente pesquisador dos estudos migratórios e suas obras permanecem vivas pela grandeza de seus conteúdos. Entre elas, destaco sua contribuição à história da imigração italiana no Brasil com a publicação do livro “Imigração e Futebol: o caso do Palestra Itália”, co-editado pela FAPESP e Editora Sumaré, 2000, fruto da dissertação de mestrado defendida na UNICAMP em 1996.

Em 2008, concedeu rica entrevista à Cidade do Futebol (Universidade do Futebol) abordando o tema desenvolvido no livro sobre o Palestra Itália, cujo texto transcrevo abaixo:

O Palestra Itália mudou seu nome para Palmeiras em 1942, no auge da Segunda Guerra Mundial, como forma de “nacionalização” – Brasil e Itália eram rivais no confronto. Entretanto, o fato de a torcida alviverde ostentar até hoje as cores da bandeira italiana nos estádios, a despeito de o clube usar apenas o verde e o branco, mostra a importância da colônia do país europeu para a consolidação e a popularização do clube.   O processo de fundação e afirmação do Palestra Itália reflete um momento importante para a comunidade italiana no Brasil. O país europeu vivia um momento de unificação e o surgimento de uma instituição que representava todas as regiões foi fundamental para o desenvolvimento dessa ideia entre os imigrantes.   Essas duas ideias mostram o quanto a fundação do Palestra Itália é indissociável do processo de consolidação da comunidade italiana em São Paulo. E vice-versa. Com base nisso, o cientista social José Renato de Campos Araújo desenvolveu uma tese de mestrado focada no caso Palestra Itália para abordar a relação entre imigração e o futebol.   Campos de Araújo defendeu a tese em 1996, e esse trabalho deu origem ao livro “Imigração e futebol: o caso Palestra Itália”. Lançada em 2000, a obra faz um paralelo entre o desenvolvimento do clube e da comunidade italiana em São Paulo durante o fim do século XIX e a primeira metade do século XX.   Mais do que traçar um raio-X da comunidade italiana e da fundação de um dos clubes mais populares do país, Campos de Araújo fez uma análise sociológica da importância que o futebol teve para a criação de um sentimento de unidade da comunidade italiana no Brasil.   Essa análise pode ser acompanhada em entrevista exclusiva de Campos de Araújo, que é coordenador do curso de gestão de políticas públicas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo, à Cidade do Futebol. Confira a seguir a íntegra da conversa:

Cidade do Futebol – Como surgiu a ideia de relacionar o Palestra Itália e uma análise sobre o processo de imigração?José Renato de Campos Araújo – Esse livro foi publicado em 2000, mas é fruto da dissertação de mestrado que eu defendi na Unicamp em 1996. É necessário frisar que o meu objeto de pesquisa foi o Palestra Itália, mas o objetivo era entender o processo de imigração. Eu participava como estagiário de um grupo que estudava a história social da imigração em São Paulo, que era liderado pelo professor Sérgio Miceli e depois passou a ser comandado pelo Bóris Fausto. Foi aí que eu defini o Palestra Itália como meu objeto de estudo.

Cidade do Futebol – E como foi o processo de pesquisa para a concepção da obra?José Renato de Campos Araújo – Houve muitos movimentos ligados à chegada dos italianos em São Paulo no século XIX, mas escolhi o Palestra por ser o de maior visibilidade. Quando fui fazer a pesquisa, precisava reconstituir a história. Comecei procurando arquivos do próprio clube no Palmeiras, mas na época em que eu fiz isso, entre 1994 e 1995, não existia um acervo oficial. Ninguém tinha a ata de fundação do Palestra Itália, por exemplo.   Quando me deparei com isso, parti para a pesquisa em jornais. Defini metodologicamente que eu ia consultar alguns anos chave: 1914 e 1915, os anos de fundação; 1916, quando o Palestra participou pela primeira vez do campeonato organizado pela Associação Paulista de Esportes Atléticos; 1917, ano em que o clube foi vice-campeão estadual; 1920, quando a equipe conquistou seu primeiro campeonato; 1933, quando o time se consolidou como o mais popular de São Paulo e talvez do Brasil; e 1942, ano da mudança de nome para Palmeiras. Li os jornais de todos os dias desses anos, de 1º de janeiro a 31 de dezembro.

Cidade do Futebol – Quais foram os jornais que você usou como base?José Renato de Campos Araújo – Eu fiz uma busca nas edições da época de O Estado de S.Paulo, mas descobri que nem todos os jornais antigos foram conservados. Nesses casos, optei pelo principal periódico de São Paulo na época, que era o Correio Paulistano.   Fiz a pesquisa e um professor da qualificação do mestrado falou que eu devia usar outro jornal para fazer um contraponto. Aí fui procurar um jornal da primeira república, que era muito importante na época, chamado A Platéia. Li A Platéia de 1920 inteiro para ver a diferença de tratamento.

Cidade do Futebol – Qual era a situação da comunidade italiana em São Paulo no momento da fundação do Palestra Itália?José Renato de Campos Araújo – Praticamente não há notícias sobre o Palestra nos jornais de 1914. O clube começa a aparecer mais no ano seguinte e isso mostra que houve uma consolidação. Precisamos lembrar que em 1914, quando o Palestra Itália é fundado, já havia uma entrada muito menor de italianos em São Paulo. Quem vai fundar o clube são os italianos radicados aqui há alguns anos ou até mesmo os filhos deles.

Cidade do Futebol – Como o Palestra contribuiu para o processo de formação da comunidade italiana em São Paulo?José Renato de Campos Araújo – Pela primeira vez uma associação dizia que representava os italianos em um contexto geral. Até então havia associações recreativas, times de futebol e outras instituições fundadas por italianos, mas elas representavam determinadas regiões e não o país inteiro.   Quando a imigração italiana começou a acontecer de forma contundente, no século XIX, a Itália ainda não existia como país. A unificação aconteceu apenas em 1870, no meio do processo imigratório. Até aquela época, só 5% da população falava italiano e a grande maioria preferia dialetos locais. Eles eram piemonteses, calabreses ou napolitanos, não italianos. O Palestra teve papel fundamental na construção da Itália aqui no Brasil.

Cidade do Futebol – Essa característica de união da comunidade já fazia parte do clube desde a fundação?José Renato de Campos Araújo – Sem dúvida. Até o nome demonstra isso. Enquanto a maioria das instituições ligadas a italianos até aquela época optava por referências a regiões, o clube era Palestra Itália. A ideia de representar todo o país foi uma novidade e uma coisa importante para o momento.   Por conta disso, o Palestra tem uma trajetória um pouco diferente da maioria das equipes. Ao contrário do Corinthians, por exemplo, o Palestra nunca foi um time de várzea. Desde o início, o objetivo era disputar campeonatos.

Cidade do Futebol – Por que os italianos elegeram justamente o futebol como forma de criar essa identidade nacional?José Renato de Campos Araújo – O futebol já era um esporte importante para a Itália naquela época. Alguns times do país haviam até realizado excursões para o Brasil.   Além disso, São Paulo vivia um período de boom demográfico. Isso deu origem a uma série de instituições que representavam colônias, como o Germania e o Internacional, que tentava reunir todos os imigrantes. O Palestra foi o caso mais famoso nesse sentido, até porque a colônia italiana era a mais numerosa.

Cidade do Futebol – Qual era o perfil dos fundadores do Palestra? Havia uma ligação com algum grupo étnico ou social dos italianos ou era algo realmente aberto a toda a comunidade?José Renato de Campos Araújo – Naquela época, o futebol era um esporte praticado pela elite e os imigrantes não participavam tanto. Os atletas eram filhos de alemães ou ingleses, e o Palestra surgiu com a ideia de reunir os italianos. Os criadores desse conceito foram empregados da família Matarazzo. Eles buscavam legitimidade e até uma ascensão social por meio do futebol.   Aliás, essa popularidade é um fator interessante. O Palestra conseguia levar uma média de 30 mil espectadores para suas partidas naquela época, quando São Paulo tinha cerca de 1 milhão de habitantes. Era um clube que penetrava todas as classes sociais em uma época em que o futebol ainda era uma prática diletante, restrita aos mais abastados.

Cidade do Futebol – Que tipo de reação esse perfil do público que acompanhava o Palestra gerou na época?José Renato de Campos Araújo – Houve um enorme estranhamento. Naquela época, o público se portava de maneira muito diferente nos estádios. A torcida do Palestra é descrita pelos jornais como um grupo que aplaudia uma só equipe. Na época, isso era considerado contra o ideal do espetáculo.

Cidade do Futebol – Esse perfil popular foi resgatado de alguma forma em 1942, na mudança de Palestra para Palmeiras?José Renato de Campos Araújo – Sim. O número de entradas de imigrantes no Brasil já havia caído vertiginosamente, mas a comunidade era significativa. Quando houve a Segunda Guerra Mundial e o Brasil tomou partido contra a Itália, houve uma necessidade de nacionalização. Por isso a escolha do nome Palmeiras, que era uma árvore nacional. Foi nessa época também que o clube aceitou o primeiro mulato, Og Moreira, algo inédito em São Paulo até então.   Só que há uma dificuldade enorme para termos informações sobre esse período. Primeiro porque esse é um dos poucos momentos da história em que a família Mesquita não comandava o Estadão. O jornal tinha um interventor do DIP e a imprensa inteira estava sob censura do governo Vargas. Além disso, era o auge da guerra e o Brasil importava 100% do papel de jornal. Isso reduziu demais o espaço para as notícias, principalmente de esportes.

Sobre Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol.

https://universidadedofutebol.com.br/jose-renato-de-campos-araujo-cientista-social/

Documentário “Eretz Amazônia: os judeus na Amazônia”, dirigido por Alan Rodrigues, 2004


O documentário conta a saga da imigração dos judeus oriundos do Marrocos para a Amazônia a partir de 1810.
Em algum momento na história de um povo perseguido, a Amazônia se tornou a eretz, a terra da promissão. É essa aventura que o documentário conta com depoimentos e reconstituições de época.
A base histórica do documentário é o livro Eretz Amazônia, do pesquisador amazonense Samuel Benchimol, que no final dos anos 80 e início dos anos 90, fez um levantamento completo das famílias judaicas que se estabeleceram na Amazônia.
Filme vencedor do primeiro DOC-TV no Estado do Pará em 2004. Lançado em rede nacional pela Tv Cultura em 2005 (por Judaismo para Todos).

Direção: Alan Rodrigues

Co-direção: David Elmescany

Produção Executiva: David Salgado Filho

Co-produção: Alan Rodrigues / Digital Produções / TV Cultura – Pará / TV Cultura São Paulo

Continua nas partes 4 e 5:

“Consulte o Registro de Estrangeiros”, 1939-1943 (Circolo Italiano di São João da Boa Vista, SP)

O Circolo Italiano di São João da Boa Vista, formado por um grupo de ítalo-brasileiros que divulgam a cultura da Itália, terminou de digitalizar os livros do Registro de Estrangeiros em fevereiro de 2017, após um ano de intenso trabalho. Os documentos originais estão sob custódia do Arquivo Municipal Matildes Salomão, localizado no Centro Cultural Pagu, e têm os depoimentos de imigrantes que estavam na cidade entre os anos de 1939 e 1943. (…)

As raridades foram recuperadas, em meados de 1997, pelo professor João Batista Scannapieco, um dos fundadores do Arquivo Histórico. Além da coleção, existe ainda um índice, que aponta para a existência de 15 volumes com depoimentos. Apenas sete foram localizados pelo historiador e tombados no patrimônio municipal.

Instituído por Getúlio Vargas, o Registro de Estrangeiros era um serviço especial da Polícia Civil. Investigadores e delegados foram incumbidos de ouvir todos os imigrantes que estavam no país na época da Segunda Guerra Mundial. Em seus depoimentos, homens e mulheres eram obrigados a falar sobre sua origem, mencionar datas de nascimento e de chegada ao Brasil, dizer o nome da embarcação na qual vieram e em qual porto chegaram. Somente após o depoimento é que os imigrantes poderiam requerer a Cédula de Identidade Modelo 19, identificação especial para quem vinha do exterior. Além das informações pessoais, os estrangeiros mencionavam dados familiares, como o nome e a idade dos filhos, o que hoje auxilia no resgate das árvores genealógicas de mais de 600 famílias da região. Ao todo, o Circolo digitalizou 1066 páginas, não só dos depoimentos de italianos, mas também de portugueses, espanhóis, libaneses, sírios, japoneses, turcos, argentinos e alemães. Entre outras utilidades, as cópias podem facilitar o caminho de quem ingressa com processos de reconhecimento de dupla cidadania.

Para consultar os livros, acesse o link:

http://www.saojoao.sp.gov.br/home/pdf/circoloitaliano.pdf

“Tesouros de imigrantes alemães confiscados por Vargas na Segunda Guerra são descobertos” (por Juliana Dal Piva e Nicollas Witzel, ÉPOCA.GLOBO, 2018)


Famílias, incluindo judeus que fugiram do nazismo, perderam joias, moedas de ouro e pratarias durante Estado Novo.

“Moedas pertencentes a alemães judeus, hoje no acervo do Museu Histórico Nacional no Rio de Janeiro”. Foto: Hugo Araújo/Agência O Globo

(Matéria compartilhada do NIEM – Núcleo Interdisciplinar de Estudos Migratórios, IPPUR-UFRJ)

https://epoca.globo.com/tesouros-de-imigrantes-alemaes-confiscados-por-vargas-na-segunda-guerra-sao-descobertos-23311740

Documentário “El tren de la memoria”, dirigido por Marta Arribas e Ana Pérez, 2005.


España. Años sesenta: Dos millones de españoles salen del país empujados por la necesidad. Su destino: Alemania, Francia, Suiza y los Países Bajos. La mitad son clandestinos y viajan sin contratos de trabajo. El ochenta por ciento son analfabetos. Ante ellos se levanta el muro del idioma y las costumbres diferentes.

España. En la actualidad: Otros necesitados llaman a la puerta de un país próspero. Casi nadie se acuerda de la otra historia. Josefina sí. Ella recuerda su viaje en el tren de la memoria. Destino: Núremberg, Alemania.

EL TREN DE LA MEMORIA retrata el éxodo de dos millones de españoles que buscaron la prosperidad en Europa en los años sesenta. Se fueron para unos meses, se quedaron treinta años. El documental pretende cubrir una laguna en la reciente historia de España y saldar una deuda con los protagonistas de unos tiempos difíciles de los que apenas sabemos algo más que una escueta historia oficial y unos cuantos tópicos.

Projeto “Baú de Memórias”

O projeto “Baú de Memórias”, criado pela Divisão de Cultura e Turismo da Prefeitura Municipal de Pederneiras, interior de São Paulo, disponibiliza biografias de imigrantes de diversas nacionalidades que chegaram à cidade a partir do século XIX. Este rico trabalho biográfico foi resultado das pesquisas realizadas por Rinaldo Toufik Razuk.

ÁRABES

http://baudememorias.pederneiras.sp.gov.br/index.php/imigrantes/arabes

ESPANHÓIS

http://baudememorias.pederneiras.sp.gov.br/index.php/imigrantes/espanhois

ITALIANOS

http://baudememorias.pederneiras.sp.gov.br/index.php/imigrantes/italianos

JAPONESES

http://baudememorias.pederneiras.sp.gov.br/index.php/imigrantes/japoneses

LETOS

http://baudememorias.pederneiras.sp.gov.br/index.php/imigrantes/letos

PORTUGUESES

http://baudememorias.pederneiras.sp.gov.br/index.php/imigrantes/portugueses

“Como estrangeiros ajudaram a contar a história de Casa Forte e das redondezas” (por Marina Suassuna)


Ao longo de sua história, a cidade do Recife conviveu com várias levas de migração e a presença destes imigrantes ajudou a construir a história da nossa cidade e consequentemente dos nossos bairros. Na Zona Norte do Recife, os bairros vizinhos de Casa Forte, Poço da Panela e Apipucos foram bastante marcados pela presença de estrangeiros.

https://poraqui.com/casa-forte/como-estrangeiros-ajudaram-a-contar-a-historia-de-casa-forte-e-suas-redondezas/

“A época em que o Brasil barrou milhares de judeus que fugiam do nazismo” (por João Fellet, BBC NEWS Brasil em São Paulo)


Em julho de 1938, o cônsul do Brasil em Budapeste (Hungria), Mário Moreira da Silva, enviou ao ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha, uma circular secreta em que informava ter recusado a concessão de vistos a 47 pessoas ‘declaradamente de origem semita’ (judeus) que buscavam migrar para o Brasil.

A reportagem conta com o rico depoimento da professora Dra. Maria Luiza Tucci Carneiro (Departamento de História da USP-SP).

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46899583