Sugestão de leitura: “Os capixabas holandeses: uma história holandesa no Brasil”

Nós conhecemos a nossa história através das que nos foram contadas à luz de velas ou lamparinas pelos mais idosos. Eles nos falavam sobre a Holanda, sobre a longa viagem que fizeram e sobre os primeiros anos no meio da mata, conta Abrão Laurett, na pequena cidade de Santa Leopoldina. A partir de 1858 até 1862 mais de 700 holandeses emigraram para o Brasil. Tiveram a coragem de deixar a terra natal na província Zeelande assinaram um contrato com a promessa de que receberiam terras, haveria trabalho suficiente para todos e boas possibilidades para o futuro de seus filhos. A realidade era bem diferente. A maioria foi parar no estado do Espírito Santo, entre morros íngremes cobertos com mata virgem, com plantas e animais desconhecidos. Debaixo de um sol escaldante para o qual a pele branca dos emigrantes não estava preparada, tiveram que construir uma nova existência. Uma tarefa gigantesca para pessoas que vinham dos Países Baixos, dos poderes (terras que foram drenadas e ficam protegidas por diques) muito planos, onde o horizonte é infinito, o ar e as nuvens que pairam sobre as pastagens são impressionantes e o espaço é enorme. Eram pequenos grupos que, assim como várias outras famílias europeias, embarcaram em navios em Antuérpia e emigraram para o Brasil. Essa se tornou uma emigração esquecida e eles, um povo esquecido.
Smoor, Boone, Louwers, Krijger, Heule, Theunisse, la Gasse, Schijve, Valkenier, são apenas alguns nomes de ‘holandeses, descendentes dos imigrantes de Zeeland’ no estado do Espírito Santo. Na colônia Santa Leopoldina os pioneiros de Zeeland construíram a própria comunidade chamada Holanda. Mas também no sul do Espírito Santo e no extremo norte na divisa com a Bahia, no vale do Rio Mucuri eles  começaram uma nova vida.

Ainda restam poucas lamparinas em Holanda. Na maioria das casas hoje se vê a iluminação fria da televisão. As histórias dos pioneiros não são mais contadas e estão ameaçadas de caírem no esquecimento. Os descendentes conhecem muito pouco a própria história, se autodenominam holandeses, mas quase nunca ouviram falar de Zeeland. Com este livro, queremos manter vivos os relatos das famílias de Zeeland no Espírito Santo, porque a história não é feita somente de grandes momentos de governos ou membros do clero, mas principalmente de pessoas que tentam construir sua sociedade. Para não esquecê-los e fazer jus a sua luta por uma nova existência registramos aqui todos os nomes. Muito se perdeu de sua história: artigos antigos, documentos, fotos e anotações foram levados para os túmulos ou destruídos por insetos. As histórias que ainda eram contadas em Holanda e nossa experiência no período de 1976 a 1983, quando trabalhamos na comunidade de Holanda, formaram a base para mais pesquisa. Eles vivem em meio a descendentes de pomeranos, alemães, suíços, austríacos e  brasileiros. Não foi fácil encontrar os nomes dos holandeses nos arquivos, uma vez que estes frequentemente eram registrados como alemães ou pomeranos. A história dos holandeses no Espírito Santo ainda não havia sido escrita. Esperamos que, com este livro, possamos colaborar com o relato dessa história e, quem sabe, algum capixaba holandês se anime em aprofundar um pouco mais esta pesquisa”.

ROOS, Ton, ESHUIS, Margje. Os capixabas holandeses: uma história holandesa no Brasil. Coleção Cannaã, vol, 9. Espírito Santo: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, 2008.

(PDF) Os_Capixabas_Holandeses

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